terça-feira, 17 de novembro de 2015

Doces pernambucanos - na trilha de Bel Coelho

As raízes da gastronomia brasileira fazem parte da história do país. A diversidade de ingredientes, sabores e aromas alimentam a criatividade de qualquer cozinheiro. Eu, Bel Coelho, brasileira, cozinheira que sempre fui apaixonada pela culinária do Brasil, estou pronta para viver novas experiências.

Ser chefe de cozinha exige muito trabalho e uma pesquisa constante. Cada prato, cada ingrediente tem sua própria história que fazem parte da cultura de um povo. Para enriquecer e aperfeiçoar o meu oficio eu vou percorrer as cinco regiões do Brasil.

E assim, a chefe de cozinha inicia todas as segundas o seu programa "Receitas de Viagem com Bel Coelho" no canal TLC. O programa foi eleito a melhor série de Lifestyle da televisão brasileira  pelo Telas 2015.

Apaixonada por viagens e por gastronomia, me viciei no Receitas de Viagem assim que o assisti pela primeira vez, isso porque quando o descobri já estavam no episódio 10 e eu não tinha visto nenhum.

É um prato cheio para os chefs amadores como eu. Um projeto muito bem desenvolvido. Ao percorrer os 5 cantos do Brasil o programa conta um pouco de nossa história e resgata as influências que recebemos dos imigrantes. Enquanto a chef mergulha no mundo da cultura brasileira, nos apresenta os mais famosos pratos típicos e suas receitas originais, a forma como eram feitos e de onde foram originados.

Assim que terminei de assistir o meu primeiro episódio corri para internet, o que acelerou minha frustração com o canal que até hoje não possui um portal TLCplay para que possamos rever os episódios. Minha saída foi ir até o menu da SKY procurar as novas datas de replay e deixar agendado para gravar. Não sei porque mas volta e meia perco as gravações em meu aparelho, então como já não gosto muito de escrever, decidi resenhar aqui, além de outros tantos artigos, as visitas e receitas dos programas com quais a chef me cativou, e nada melhor para começar do que o episódio que que a Bel se delicia com os doces Pernambucanos.

Neste episódio a chef desembarca em Recife - PE para uma doce pesquisa, chega a capital do ciclo do açúcar para conhecer as raízes de sobremesas que sempre a inspiraram na hora de cozinhar.



No topo da sua lista de receitas típicas está um doce para quem tem dentes fortes e que tem curiosidade de saber mais sobre o Brasil colônia. Esta viagem nos leva para onde tudo começou.


Maria Melânia Galado, proprietária do Engenho Lage Bonita, se encarrega de apresentar à Chef a área de produção.


O produto dá o ponto em um tacho de cobre, igual à época de nossos avós que  além dos tachos usavam também fogão à lenha.


O doce está muito na vida do pernambucano, faz parte de sua infância , de sua cultura. O açúcar era uma das especiárias que eram exportadas para Europa junto com o pau-brasil e as pedras preciosas de Minas Gerais. O açúcar era o ouro branco. O pernambucano gosta mais de doce do que do salgado.



O engenho trabalha da mesma forma há 122 anos. Já era assim na época do Brasil colônia. É a terceira geração trabalhando ali nos mesmos moldes, mantendo todas as tradições familiares.

Eles sabem só de olhar o exato ponto do mel de engenho e da rapadura. Para rapadura a mistura vai engrossando e soltando do tacho.


A secagem é muito rápida, 4 a 5 minutos já está pronta a rapadura para ser desenformada.


Um momento inusitado para a chef, ela já havia visitado algumas usinas de açúcar , mas nunca tinha entrado em um lugar tão tradicional. O cheiro da cana  e do melaço são marcantes e transportam a outros tempos.


Antes de deixar o engenho a chef degusta um pouco de coisas tradicionais deles: Queijo de manteiga com mel de engenho, e um pouco da rapadura.





A chef conclui que impressionantemente a produção artesanal interfere no resultado final do produto. Ela nunca havia provado uma rapadura tão saborosa, já a combinação do queijo com o mel do engenho era uma velha conhecida. Esse queijo manteiga é bem típico dessa região. Um produto caseiro usado também em outra sobremesa a "Cartola".


As pesquisas da chef são sempre recheadas de lugares tradicionais e o Restaurante Leite é um deles.


Por ser um dos mais antigos do país, ali a receita da Cartola é seguida a risca.


Receita da Cartola

Ingredientes:

1 fatia grossa de queijo manteiga
1 banana prata bem madura
1 colher de sopa de manteiga
1 colher de sopa de farinha de trigo
1 colher de sopa de açúcar
1 colher de sopa de canela

Modo de Fazer:

Passe o queijo manteiga na farinha de trigo, depois pincele manteiga e leve à chapa para dourar.







Corte a banana ao meio, passe manteiga e leve para chapa também.





Segundo o cozinheiro do restaurante o Cartola é a sobremesa campeã dos pedidos. Muitos clientes costumam pedir outros doces tradicionais como o mousse de castanha e a rabanada, mas o Cartola tem a maior saída.

Retire o queijo da chapa e coloque por cima da banana.




Polvilhe uma mistura de canela e açúcar.




Faça um desenho decorativo em cima com uma colher e a cartola está pronta para comer, não há como sair ruim.


É uma receita que encanta , uma ótima combinação, o queijo se contrasta com o doce da banana, e a canela traz um sabor único, bem interessante.

Ninguém sabe bem ao certo a origem desta sobremesa, mas deve ser  da época dos engenhos e da escravatura porque esses produtos: a banana, o queijo manteiga, e o açúcar já existiam nesse momento.







Os doces nordestinos , principalmente os que levam frutas nativas, sempre chamam a atenção. Todas são muito perfumadas e populares no Recife.



A Chef visita a sorveteria Fri-Sabor e pergunta sobre os sabores  regionais.



 Entre muitos eles oferecem maracujá, cupuaçu, graviola, cajá e mangaba. 



Bel experimenta um de mangaba, cajá e gaviola. O sorvete é feito da fruta natural.As frutas tropicais são muito ricas e interessantes, as 3 escolhidas são as mais ácidas e o cheiro é fantástico. 



O calor de Pernambuco pede sorvete, mas elas também podem ser usadas em outros doces, sucos e geleias.

A noite cai e o nível de açúcar não para de subir, dessa vez um jornalista e pesquisador da gastronomia pernambucana é quem vai dar uma aula sobre os doces mais tradicionais do lugar.



 Bruno Albertim leva a Chef ao restaurante Parraxaxá.


 Ele mostra alguns dos doces mais  famosos de Pernambuco, entre eles: um bolo de milho, queijadinha (um doce com coco de influência portuguesa), arroz doce, pudim de tapioca (também conhecido como pudim de sagu), bolinho de padaria (que eles chama de bolo de bacio), uma canjica molinha com milho (típica comida de São João),  e o mais emblemático de todos o bolo Souza Leão.




O Souza Leão é um bolo importantíssimo que foi tombado recentemente como patrimônio imaterial culinário pernambucano. Esse bolo leva o nome da família Souza Leão. O açúcar sempre esteve interligado à política e a economia, era alimento de primeira ordem na história de Pernambuco, assim, era muito comum às pessoas fazer bolos e ter receitas de família. É um bolo muito calórico ainda hoje, mas quando surgiu era bem mais. Ele traz os excessos da comida colonial. Um bolo denso e muito doce  que vale a pena provar. É um daqueles doces que arrepiam. É bem diferente dos outros bolos porque leva mandioca e não farinha de trigo. As outras calorias ficam por conta do leite de coco, da manteiga, das gemas e do açúcar.



 Esse bolo sintetiza na boca a importância do açúcar de Pernambuco, parece que se morde um pedaço dessa história.


A culinária pernambucana é resultado da mistura de hábitos de diferentes povos.


Para ir a fundo nos costumes dessa região, Bel foi ao Recife antigo, onde existem muitos imigrantes europeus.



Por incrível que pareça na Rua do Bom Jesus em Recife foi construída a primeira Sinagoga das Américas, e como todos sabem os doces são super  importantes na culinária judaica.



Tania Kaufmann (antropóloga) fala sobre a importância dessa Sinagoga.



 A Sinagoga foi construída em um tempo de hostilidade como relativo afrouxamento pelos judeus holandeses que vieram de Amsterdã atraídos pelos negócios de açúcar no século XVII.



A Antropóloga apresenta à Chef o Kamish, um doce judaico de origem Asquenazi que recebe a influência de produtos locais. em pernambuco as nozes, amêndoas e o doce de uva são substituídos por goiabada ou doce de jambo do Pará, castanhas e ficam na forma de rocambole, como o bolo de rolo.

É muito interessante como os judeus brasileiros conseguiram preservar a sua cultura, suas tradições se adaptando aos produtos locais, eles aproveitaram o que lhes tinha disponível.

Receita de Kamish Brot (Fonte: receitas da Branca)

Ingredientes:
3 ovos, 3/4 de copo de açúcar (150 grs.), 1/2 copo de óleo, 3 copos de farinha de trigo (460 grs.), 2 colheres de chá de fermento em pó, 1 colher de chá de essência de baunilha, 100 gramas de chocolate meio amargo picado, 100 gramas de nozes picadas.
Modo de fazer:

Peneirar a farinha e o fermento juntos e reservar. Misturar os ovos, açúcar , baunilha e o óleo. Juntar a farinha com fermento. Misturar bem e juntar o chocolate e as nozes. Polvilhar um tabuleiro com farinha (sem untar) e colocar tiras de massa (com o auxílio de uma colher). Levar a assar em forno a 180ºC. Quando começar a corar. cortar as tiras em fatias e voltar ao fono para acabar de assar. Quando estiver assado de um lado, vire cada biscoitinho para assar bem do outro lado.
Obs:

Rende 50 biscoitos pequenos.





Há uns 5 anos os fiéis começaram a colocar papeizinhos com pedidos na parede da Sinagoga. Parece que as pessoas absorveram a atmosfera religiosa do espaço e se sentem estimuladas a se comunicar.



De coração aberto a Chefe escolhe um cantinho especial para o seu pedido, assim como fazem os fiéis no Muro das Lamentações em Jerusalém, o lugar mais sagrado do mundo para os judeus.





Com as energias renovadas a Chefe se prepara para por a mão na massa e aprender todos os truques do doce mais tradicional de Recife. Para isso ela vai a Casa dos Frios.



Saímos de um bolo para outro e quem a recebe é a proprietária e cozinheira da Casa dos Frios, a Dona Fernanda Dias,  a própria ensina à Chefe os segredos do bolo de rolo.



Um dos segredos é a goiabada, temos que escolher uma goiaba boa, descascar para preparar o doce e cortar em 4.


Existe uma versão de que o bolo de rolo é de origem portuguesa, e vem do Colchão de noiva (sobremesa tradicional), mas Dona Fernanda crê que o doce é de origem pernambucana.

Ela bate a goiaba no liquidificador e passa na peneira, depois coloca na panela com o açúcar, mexe e leva ao fogo. Isso nos faz lembrar um doce de infância o Romeu e Julieta (goiabada com queijo).

Depois de fazer a goiabada, elas batem o bolo, misturam manteiga, açúcar, ovos e farinha; untam um tabuleiro grande e espalham a massa bem fininha para ficar bem delicado.


A diferença do bolo de rolo para o rocambole é a finura e a manteiga que o outro não leva. Colocar a massa no tabuleiro é quase um processo de decoração de bolo feito com a espátula. Assa-se a massa de 2 a 3 minutos apenas.


Para fazer um bolo de rolo tradicional é preciso atenção aos detalhes. Ficou claro que o segredo desta receita é a delicadeza na espessura da massa finíssima e a camada de recheio é leve. Isso deixa o bolo úmido e saboroso na medida ideal. Após enrolar o bolo elas o decoram com açúcar cristal.


O melhor dia para se comer o bolo de rolo é o dia seguinte, mas há os que gostem de comer o bolo ainda quente. Dona Fernanda apresenta uma nova versão do Romeu e Julieta (bolo de rolo com queijo do reino).


A experiência gastronômica em Pernambuco também inclui Olinda e um passeio pelas famosas barraquinhas de rua do Alto da Sé.






Ali Bel encontra, o último item de sua lista, uma receita genuinamente brasileira feita com goma de  mandioca de origem indígena. 

Bel para na famosa Barraca da Bia. Para tapioqueira Dona Severina Maria (Bia) o segredo da tapioca está na massa que deve estar úmida e não pode ser azeda.




A Chefe pede uma tapioca de coco com doce de leite e queijo (foto).Diferente daqui Dona Bia coloca o recheio e vira a tapioca com o recheio par o fogo por alguns segundos e depois o dobra.

Bia explica que tem diferença no produto que faz a tapioca, segundo ela a macaxeira  a gente cozinha e come com manteiga, a mandioca não se cozinha é apropriada para fazer a goma, a farinha, o biju e os sequilhos. A tapioca é de origem indígena, eles faziam o biju e a própria tapioca em pedras quentes na lenha, comiam pura ou acompanhadas de peixe.

Não tem como ir a Olinda e não comer uma tapioca no Alto da Sé na barraca da Bia. De todas as comidas nordestinas  a tapioca é a que a Chefe mais gosta.



O que mais encanta no Brasil é essa diversidade de cores, ritmos, culturas e obviamente de sabores.

Para o Mestre Ferreirinha (Mestre de Maracatú) Pernambuco é cheio de cultura. O Maracatú é uma das mais conhecidas formes de manifestação dessa cultura. Quando parte para essa ética , Pernambuco tem 2 tipos, o baque virado e o rural. A dança conta uma história com seus personagens, misturando indígenas, portugueses e africanos.


Essa passagem por recife e Olinda aumenta nossa criatividade, viajamos no tempo no engenho de Bonita, conhecemos segredos de receitas tradicionalíssimas da região e ainda tivemos o privilégio de acompanhar o embalo da alegria e hospitalidade do pernambucano.

Ao som do Maracatú, esse ritmo intenso e contagiante de influência negra e portuguesa, a Chefe se despediu desse povo que tem açúcar correndo nas veias, e nos deixou ansiosos aguardando os próximos programas.